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Varsóvia, 1939: a última partida

Durante seis anos, entre 1939 e 1945, cada partida de futebol poderia ser a última. E para muitos foi. Uma das citações mais repetidas de Franz Kafka é a que ele escreveu em seu diário em 2 de agosto de 1914: “A Alemanha declarou guerra à Rússia. À tarde, fui nadar.”

A capacidade de abstração do escritor tcheco surpreende a seriedade dos eventos internacionais, mas ele, diferentemente de nós, não sabia que naquela tarde a Europa estava correndo suas últimas horas de paz antes de uma catástrofe inigualável.

Diante da Primeira Guerra Mundial, homens e mulheres estavam cientes de se despedir de seu modo de vida, de suas cidades, impérios e, 17 milhões deles, até da sua própria existência. A julgar pela aula de natação de Kafka, alguém poderia afirmar erroneamente que não.

25 anos após a “Grande Guerra” (28 de julho de 1914 a 11 de novembro de 1918), o velho continente vivia uma verão semelhante novamente. As feridas gravemente curadas após a luta, a crise econômica de 1929 e o crescimento do populismo e totalitarismo criavam um cenário sinistro. Mas, ao contrário de 1914, em agosto de 1939 ninguém conseguia escapar para a piscina alegando ignorância. Com o início do mês a inevitabilidade de um novo conflito se espalhava pela Europa.

Na quarta-feira, 2 de agosto, quando o primeiro-ministro britânico aprovava as férias da Câmara dos Comuns até outubro, mais de 30 deputados conservadores negavam-lhe o voto, incluindo Winston Churchill e John Ronald Carland, que alertavam: “Estamos em uma situação em que talvez tenhamos que lutar e morrer em um mês.”

Uma semana depois, a Itália proíbia a emigração do interior para cidades com mais de 25.000 habitantes, como uma medida para minimizar as vítimas em caso de bombardeio. Na noite de sexta-feira, 11, a Inglaterra ficava no escuro por quatro horas para provar sua defesa aérea. Na mesma segunda-feira, 21, quando Stalin e Hitler secretamente concordaram em dividir a Polônia, Charles Chaplin cancelava em Hollywood o início das filmagens de seu novo filme: “Os Ditadores”. Na quinta-feira 24, o papa Pio XII declarava em uma mensagem de rádio: “O perigo é iminente, mas ainda há tempo”.

No dia seguinte, em Paris, o Museu do Louvre fechava oficialmente suas portas para trabalhos de manutenção. A realidade é que seus trabalhadores começavam a empacotar e armazenar as obras de arte. No sábado 26, o empresário sueco Birger Dahlerus voou de Londres à Berlim com uma carta do governo britânico em uma tentativa final de apaziguar os planos de Hitler de invadir a Polônia.

E Polônia? Bem, no país em um tarde de domingo, 27 de agosto de 1939, era disputada uma partida de futebol: naquele dia em Varsóvia, a seleção polonesa conseguia uma façanha: vencer a temida e extraordinária seleção da Hungria. Pela importância esportiva, pela efêmera explosão de euforia em sua sociedade, mas especialmente pelo sombrio contexto histórico em curso, essa partida seria conhecida pelos poloneses como “A última partida“. Porque assim foi.

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(Polônia x Hungria: Varsóvia, 27 de agosto de 1939)

Em uma Europa que prendia o fôlego, a Hungria decidiu ser fiel à sua longa amizade com a Polônia e enviavou sua seleção que, doze meses antes, disputava o título mundial contra a Itália. Faltaram apenas três jogadores, que já tinham sido convocados para o exército húngaro em ao iminente conflito. Não surpreendentemente, em Budapeste, eles conheciam as intenções de Hitler em primeira mão: em julho, o próprio “Führer” (em alemão: condutor, guia, líder ou chefe) solicitou ao Primeiro-Ministro da Hungria a utilização do exército húngaro na ocupação da Polônia. “Prefiro pilotar todas as nossas linhas ferroviárias do que participar da invasão de nossos vizinhos”, respondeu Pal Teleki.

Somente essa relação fraterna explicaria a jornada arriscada da seleção húngara a uma capital que já avistava as máquinas de guerra nazistas.

Era um fim de semana estranho, em alerta vermelho também no esporte: o primeiro dia da Liga Francesa fora adiado, aguardando uma resolução pacífica dos eventos. Na Inglaterra, por outro lado, a Liga de Futebol começava com uma grande presença militar nas arquibancadas, enquanto na Polônia, o campeonato era suspenso enquanto a seleção disputava amistosos contra a Hungria, domingo 27 de agosto, e Bulgária, sete dias depois (a segunda partida nunca aconteceu). Na Espanha, ainda em ruínas após o fim da guerra civil há apenas seis meses, a nova temporada da Liga só começaria em dezembro.

Varsóvia, que como todas as grandes cidades polonesas já começava a cavar trincheiras antitanque, acolheu os internacionais húngaros com manchetes do ambiente pré-guerra: entre as recomendações, como lidar contra um ataque com armas químicas. Nas páginas do Przegląd Sportowy, o principal jornal esportivo polonês, estampavam previsões que pareciam ir além do simples futebol: “Não temos chance de ganhar, mas queremos lutar”.

E, de fato, a primeira meia hora pareceu confirmar o pessimismo da imprensa: 0 a 2 no placar do Estádio do Exército Polonês, diante de 20.000 espectadores. A Hungria tinha György Sárosi, do Ferencvaros, e Gyula Zsengellér, do Ujpest, cada um deles autor de cinco gols na recente Copa do Mundo na França de 1938. Somente os sete gols do brasileiro Leônidas impediram que dois atacantes dos clubes rivais em Budapeste competissem pela artilharia na Copa do Mundo de 38.

Mas então veio a virada, através de Ernst Willimowski que marcou um “hat-trick” (tres gols emu ma única partida) e da penalidade convertida por Leonard Piatek, a Polônia alcançava uma vitória inesperada.

“Ezi” Willimowski foi uma das muitas figuras do futebol intensamente afetadas pela guerra: nascido na Silésia, de família de língua alemã, em 1934 deixou seu primeiro clube, o 1.FC Kattowitz (controlado pela minoria alemã) para fazer parte do Ruch Chorzów. Seus registros estratosféricos de artilharia o levaram à seleção polonesa, embora uma sanção federal, após uma noite de embriaguez, o privasse de participar dos Jogos Olímpicos de Berlim em 1936, onde a Polônia terminou em quarto lugar. Dois anos depois, em Estrasburgo, Willimowski se tornaria o primeiro jogador a alcançar quatro gols na mesma partida da Copa do Mundo: seu desempenho contra o Brasil não serviu para eliminar os sul-americanos, que venceram por 5 a 6, mas foi um marco que levaria meio século para ser superado (Oleg Salenko marcou 6 gols na partida entre Rússia e Camarões nos EUA na Copa de 1994).

Como outros cinco titulares da Polônia que venceram a Hungria, Willimowski nacionalizou-se alemão após a ocupação nazista, o que lhe permitiu continuar sua carreira, uma vez que a Polônia fora excluída de qualquer competição esportiva. Já seu treinador, Jozef Kaluza, se recusou a colaborar com os ocupantes. Dessa forma “Ezi” conseguiu ingressar no clube alemão Munique 1860, com o qual foi proclamado campeão da “Terceira Copa do Reich” no Estádio Olímpico em Berlim, aceitando logo após o chamado da seleção nazista, pela qual marcou 13 gols em oito jogos.

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(Seleção polonesa: Willimowski, o quarto da esquerda para a direita, e com o uniforme da Alemanha nazista.)

Seu desempenho em campo e sua reputação antes da guerra o ajudaram a manter sua mãe viva no campo de extermínio de Auschwitz. Após a guerra Willimowski foi considerado um traidor na Polônia comunista e viveu em Karlsruhe, onde abriu um restaurante. Depois trabalhou em uma fábrica e morreu em 1997.

Retornando a agosto de 1939, Willimowski ainda era considerado herói para os torcedores poloneses, que entraram em campo depois da histórica vitória contra a Hungria por 4 a 2. Outro que deixou o campo carregado pelos torcedores foi o treinador Jozef Kaluza (após uma bela carreira como atacante de Cracóvia, levou a Polônia ao quarto lugar olímpico e à qualificação para a Copa do Mundo de 1938, feito que seria igualado somente quatro décadas depois na Espanha em 1982, com Boniek, Lato, Smolarek e companhia).

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(Euforia nas arquibancadas)

Kaluza foi um dos poucos líderes da Federação Polonesa que continuou no país após a invasão. Ele rejeitou as ofertas nazistas de se tornar delegado esportivo na Polônia ocupada, alegando “falta de tempo”. No outono de 1944 ficou doente e, na ausência de penicilina – reservada apenas aos cidadãos alemães – morreu em sua casa. Seu funeral se tornou um protesto maciço contra a ocupação nazista. Hoje, o estádio de Cracóvia está localizado na rua que leva seu nome.

O segundo treinador de Willimowski, Marian Spoida, não teve melhor sorte: nascido em Poznan, de origem germânica, foi levado para um campo de prisioneiros. Em 1940 foi executado pelos serviços secretos da URSS nas florestas de Katyn, junto com outros 22.000 membros das elites culturais, econômicas e militares polonesas. No entanto pode ser identificado três anos depois porque, juntamente com seus restos mortais, encontraram seu cartão de membro da Warta Poznan, a equipe com a qual havia sido campeão da Liga polonesa uma década atrás.

Todo esse desastre ainda estava por vir em 27 de agosto de 1939. Como a tempestade que carregava as nuvens antes de precipitar, naquela tarde em Varsóvia o fedor da guerra flutuava na atmosfera para quem pudesse respirá-lo. No banquete que ambas as seleções (Polônia e Hungria) compartilharam naquela mesma noite, o presidente da federação polonesa, coronel Kazimierz Glabisz, encerrou seu discurso com uma frase perturbadora: “Quem sabe se hoje não é o último jogo antes de uma nova guerra”.

Cinco dias depois, Hitler ordenava a invasão da Polônia. A espiral através da qual a humanidade foi dilacerada: blitzkireg, Holocausto, Stalingrado, dia D, Hiroshima e Nagasaki, só terminaria 5 anos depois.

Nota: ontem, domingo dia 1º de setembro de 2019, o presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, pediu perdão ao povo polonês pelo início da II Guerra Mundial.

 

Texto original de Aitor Lagunas publicado no site Panenka.

 

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Adriano Ávila

A prova inquestionável que existe vida inteligente fora da Terra é que eles nunca tentaram contato com a gente.

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