Do que me lembro?

Acordei com uma sensação estranha hoje. Boa, mas estranha. Resolvi dar uma volta para arejar a cuca. Levantei da cama, botei uma bermuda e saí do quarto tentando vestir uma camisa do Brasil que estava meio amarrotada (entenda-se como perfeita para o uso matinal).

As ruas ainda estavam enfeitadas de verde e amarelo, afinal havia só um dia da derrota para a França. Cruzamento de Zidane, Henry pegando de primeira, Roberto Carlos ajeitando o meião… Agora eu entendi porque minha camisa estava tão amarrotada. Mas uma coisa eu não entendia, porque aquela sujeira toda? Parecia que havia tido uma festa que varou a madrugada. Algumas pessoas ainda cambaleavam se segurando umas às outras com copos de cerveja na mão e cantando o hino nacional. Esse povo gosta de uma farra, até na derrota, pensei. Mas, quando meus pensamentos ainda emaranhavam-se na cachola, deparei-me com uma banca de jornal e uma manchete me deixou estático: Show Canarinho. Brasil 4 x 1 França.

O que? Como assim? E o Zidane? E o Henry? E a meia do Roberto Carlos? Aquilo não entrava na minha cabeça, que nessa hora, começou a doer. Perguntei para o moço da banca:
Quem fez os gols do Brasil?
E veio um vozeirão:
– Rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrronaldinho!!!!!!
Isso mesmo, o moço da banca era o Galvão Bueno. Saí correndo em direção ao primeiro boteco com televisão que vi pela frente. Entrei numa birosca e sentei-me no balcão. Todos olhavam para a TV. Estava na hora do programa esportivo e eu queria ver os lances, os gols, a repercussão. Eu só me lembrava do Zidane, do Henry, do meião do Roberto Carlos… Puta que pariu!!!!! Só lembro disso! Concentrei-me no momento e ouvi do apresentador: “No próximo bloco, o show da seleção brasileira!”. E foi só. A TV saiu do ar. Confusão, briga, quebradeira. Virei para o lado e vi o Edmundo batendo em todo mundo. Saí correndo de lá e em menos de cinco segundos estava na sala da minha casa. Liguei a TV e estava começando os “melhores momentos”.

A manchete que havia visto na banca não estava mentindo. O Brasil jogou demais, com raça, vontade, determinação, coragem, ousadia (porque eu estou começando a achar que isso é um sonho?). Saímos perdendo e no segundo tempo viramos com quatro gols do Fenômeno, que depois do jogo, saiu comendo um pedaço de pizza só para tirar onda. Coloquei a mão no rosto num estado imenso de alegria e quando virei o rosto o Mestre dos Magos estava ao meu lado. Disse-me que aquilo tudo era um sonho, que eu precisava voltar para a realidade, que eu tinha que achar o rio que corre ao contrário… Perguntei então como que havia terminado aquela copa. Ele me disse que pegamos Portugal na semifinal, Felipão deu nó tático em Parreira e perdemos com um gol de Deco de mão. É nem em sonho, aquela Copa não seria nossa.

Pisquei os olhos e já estava em minha cama, ainda meio desligado. Tentei me lembrar o que havia sonhado, mas a única coisa que consegui lembrar foi… Deixa para lá, vocês já sabem.

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André Fidusi

Publicitário e jornalista por formação, ilustrador por vocação. Futebol na veia. Quem pede recebe, quem desloca tem preferência. Pegar de pé é dibra. Vamo que vamo!

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