O que aconteceu?

O jogo estava difícil. As duas equipes, exaustas em campo, travavam um duelo como há muito não se via. Chuva, frio, suor e lágrimas mostravam a essência da partida. Clima tenso, jogadores e árbitro nervosos, a qualquer momento tudo aquilo poderia explodir.

Da arquibancada, ele não entendia o que estava acontecendo. Olhou para os lados, para frente e para trás. Todos a sua volta pareciam ter a mesma preocupação. Botou a cabeça entre as pernas e perguntou para si mesmo: “O que é isso meu Deus?”. Essa pergunta poderia ter sido feita por qualquer alma que rondava aquela arquibancada lotada de homens, mulheres, crianças, ricos, pobres, crentes e céticos. Afinal, seu time chegara à decisão com uma campanha dos sonhos, que até o mais alto escalão bairrista bateu palmas. Alguns engoliram meio seco, duro e áspero, arranhando a garganta. Mas não tinham como negar. Os números eram absolutos: vinte jogos, quinze vitórias e cinco empates. Que campanha! Invencibilidade maiúscula, as duras penas, é verdade. O regulamento era… bem, não vale a pena nem falar.

Mas toda a superioridade vista ao longo do certame não estava explícita naquela tarde cinza. Por que? Ninguém sabia. Só sabiam que a bola não entrava. A torcida tentava empurrar o time. Cantos, gritos e palavrões eram ouvidos pelos quatro cantos do estádio. Ele continuava assistindo. Sentiu uma mistura de desespero e inquietação. Queria falar com o time, com o técnico com a torcida. Seu corpo não parecia bem. Por mais que esboçasse uma tentativa de qualquer coisa, essa coisa não dava certo. Levantou-se do lugar e, de repente, num ato totalmente irracional, fechou os olhos e saltou.

Como aquilo pôde passar despercebido por uma multidão à flor da pele? Sinceramente, não sei. Quando abriu os olhos, estava em campo. Sentiu a tensão e a adrenalina, que saia até da grama, tomarem conta do seu corpo. Ficou sem saber o que fazer, se sentindo alheio àquela arena que mais parecia o coliseu antigo. Mas uma bolada no rosto e um grito o obrigaram a acordar: “Se liga no jogo, pô!”. E sem entender como tudo acontecia, disparou em direção ao gol. Os pingos grossos da chuva doíam no corpo. Pés e mãos arranhavam-no numa tentativa fulminante de detê-lo. Nada disso o impedia e tudo agora parecia mais fácil. Num espaço de tempo insignificante lembrou da supremacia inquestionável de todo o campeonato como um filme que passou por sua mente.

De repente uma trombada. Não escutou o apito. Não escutou nada e também não viu nada. Tudo ficou escuro. Sentiu uma leveza no corpo que o fez abrir os olhos. Ainda estava no gramado, mas sem ninguém a sua volta. Observou que a arquibancada continuava cheia, mas e o resto? Olhou para trás e viu jogadores ajoelhados no meio do campo. A partida havia ido para as temíveis cobranças de pênaltis. Mas como? Há um minuto estava tudo tão real e fácil, era só chutar a bola em direção ao gol e fazer a massa feliz. Mas quando viu um jogador da sua equipe levantar-se e partir rumo à meta, gritou: “Esse não! Esse não! Pelo amor de Deus!”. Era inútil, sua voz parecia não ter força e seu corpo estava pregado ao solo. De algum modo sabia o que aconteceria naquele momento. E foi como previu. Tragédia, perda. Chorou não acreditando na festa adversária.

Com as mãos no rosto e as lágrimas descendo, levantou-se da cama. Assustado, constatou que estava em casa. Foi até a janela e viu que a festa do título ia pela madrugada. Virou-se para o lado e viu a faixa de campeão que comprara após a decisão histórica. Colocou a mão no peito e suspirou: “Ufa!”. Sorriu e deitou-se para continuar o sono dos vencedores.

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André Fidusi

Publicitário e jornalista por formação, ilustrador por vocação. Futebol na veia. Quem pede recebe, quem desloca tem preferência. Pegar de pé é dibra. Vamo que vamo!

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