Ouro de Tolo

O Brasil conquistou o bicampeonato olímpico no futebol masculino em Tóquio 2020, edição que foi realizada em 2021 devido a pandemia da Covid-19. Venceu com méritos, dentro de campo e com muita entrega dos seus jogadores e comissão técnica. Entretanto, para quem prestou atenção aos detalhes, ficou aquela sensação de “ouro de tolo”.

A expressão “ouro de tolo” era utilizada na idade media para representar as pessoas que compravam ouro de falsos alquimistas e que na verdade eram pedras sem valor, pintadas de dourado. Foi o título também da música de Raul Seixas, presente no álbum “Krig-ha, Bandolo!”, lançado em maio de 1973 pela gravadora Philips Records e que foi escolhida em 2009 pela revista Rolling Stone Brasil, a 16ª entre as 100 maiores músicas brasileiras de todos os tempos. Entre outras coisas a letra diz:

“Eu devia estar sorrindo e orgulhoso por ter finalmente vencido na vida, mas eu acho isso uma grande piada e um tanto quanto perigosa…”

 

Mas por que o ouro do futebol masculino gerou tanta polêmica?

 

Todo atleta olímpico representa uma nação inteira, faz parte de um grupo maior de atletas e de um país que se vangloria e se sente orgulhoso pelas medalhas que conquista. Muitas vezes, inclusive, seus governos as utilizam como fator de afirmação de suas riquezas, progressos e sucessos político e econômico. Mas antes fosse isso, essa utilização às avessas das medalhas, o motivo de tanta polêmica. O que aconteceu foi algo com menor importância (em termos), porém, constrangedor e que explicitou a disfunção social dentro do Brasil e, principalmente, a desqualificação dos gestores que ocupam os cargos mais altos dentro da CBF.

Existe um protocolo e um conjunto de regras nas Olimpíadas onde todo atleta, de qualquer país, seja uma modalidade individual ou coletiva, masculina ou feminina, precisa cumprir: estar devidamente uniformizado no pódio quando for receber a sua medalha de ouro, prata ou bronze.

 

Jogadores brasileiros não usaram agasalho Peak do "Time Brasil". Foto: OneFootball

Jogadores brasileiros não usaram agasalho Peak do “Time Brasil”. Foto: OneFootball

 

A seleção olímpica masculina não cumpriu isso. Os seus jogadores escolheram amarrar o casaco na cintura, que levava a marca Peak, fornecedora oficial da delegação brasileira em Tóquio 2020 e a patrocinadora de fato do futebol e de todos os demais esportes olímpicos do Brasil nessa edição. Disseram que “cumpriram ordens” para mostrar a camisa Nike. A CBF emitiu uma nota controversa dizendo que não sabia e também que era por força de contrato, ter que exibir a marca da Nike. Ora, se o contrato tinha essa cláusula, como não se atentar que isso implicaria em não usar o uniforme olímpico?

Existe uma diferença bem evidente entre a seleção de futebol masculina principal e a seleção olímpica, inclusive, em relação aos ambientes comercial e institucional que as cercam. Quando a CBF firma acordos dessa forma, ela envia uma mensagem para o COB, para o COI e para todos os torcedores brasileiros, imprensa e patrocinadores que não faz parte do espírito olímpico, pois está acima disso e não precisa cumprir nenhuma regra ou regulamento. Passa também a mensagem de que o mais importante é o dinheiro e não o esporte. Claro, sem um não tem como desenvolver o outro, mas o primeiro é ferramenta e não objetivo. Tudo isso somado a alienação histórica dos jogadores brasileiros de futebol que raramente se posicionam em questões sociais, com a falácia de que futebol e política não se misturam. São vítimas também dessa “culpa”, pois a educação no Brasil está longe da ideal e a maioria absoluta dos jogadores vêm das comunidades mais carentes, excluídas de várias formas e instâncias da nossa sociedade.

Desde 1974, a presidência da CBF é ocupada por indivíduos que foram presos ou afastados por denúncia/comprovação de corrupção ou ainda, assédio sexual. São quase 50 anos de desmandos e de gestões equivocadas que foram mascaradas por duas conquistas em Copas do Mundo: 1994 e 2002. E sim, o Brasil é capaz de vencer um Mundial, independentemente dos seus cartolas. Reflexão importante: como seria a participação do Brasil nas Copas de 1974, 1978, 1990, 2006, 2010, 2014 e 2018 se tivéssemos uma administração competente, à altura do futebol brasileiro?

Já passou da hora das Federações e dos clubes da Série-A elegerem profissionais capazes de gerir a Entidade e com condições de perceber toda a responsabilidade esportiva, cultural e social que a CBF possui. Ela é referência para muitos jovens e toda vez que assume uma posição de tamanha contradição, como agora em Tóquio, pode confundir as pessoas sobre o que é realmente valor e objetivo na vida, como fica evidente nesse post publicado pelo Futbox no último domingo, dia 8 de agosto, nas redes sociais. (Clique na imagem abaixo para se direcionar à publicação):

 

 

Para quem se interessar pelo universo da nossa maior entidade futebolística indico dois livros com links para compra no site Estante Virtual: “Como eles roubaram o jogo”, de David Yallop (1998), onde o jornalista inglês conta os bastidores das Copas de 1966 a 1998 e nos apresenta um capítulo surpreendente na escolha da sede de 1986 no México (seria na Colômbia), onde o “Rei Sol”, alcunha que o escritor dá ao João Havelange, teria ciência de crimes cometidos para a condução da escolha da nova sede, crimes que envolviam até assassinatos. Tudo documentado. O Segundo livro é “Jogo Sujo: O mundo secreto da FIFA”, de Andrew Jennings (2006), onde o repórter e investigador escocês descreve com detalhes e documentos todo o cenário de corrupção da FIFA com algumas federações, onde a CBF está presente nesse cenário junto com o seu ex-presidente (1989 a 2012) e ex-cunhado do Rei Sol, Ricardo Teixeira.

 

Capas dos livros: "Como eles Roubaram o Jogo" e "Jogo Sujo"

Capas dos livros: “Como eles Roubaram o Jogo” e “Jogo Sujo”

 

A CBF é, e continua sendo, uma instituição importantíssima não só para o futebol, mas para todos os esportes brasileiros, pois é a mais rica e representa o esporte mais praticado e amado no país. Que sejamos o “país do esporte”, não apenas “do futebol”. Paradoxalmente, a CBF é um dos agentes mais importantes nessa transformação, pois a inclusão pelo esporte é um referencial de desenvolvmento real em qualquer nação e a Instituição que encabeçar esse processo terá a admiração e o respeito de todos.

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João Corneta

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