Campeonato Brasileiro: nomenclatura e significado histórico

Clube Atlético Mineiro comunicou na tarde desta segunda (06/12/2021) que não irá incluir uma segunda estrela em seu escudo oficial, mesmo com o desejo público manifestado pelo seu técnico, Cuca. A justificativa oficial foi por causa do simbolismo da estrela atual, referente ao primeiro Campeonato Brasileiro. Temos aqui mais um capítulo da série de polêmicas históricas em relação à principal competição do país. Sem falar do número “50” gravado no troféu de 2021.

Antes de entrarmos nesse emaranhado de confusão que se perpetua há décadas, é importante esclarecer que precisamos celebrar todas as conquistas dos clubes brasileiros, desde 1959. Enaltecer a campanha memorável do Galo na conquista do bicampeonato brasileiro, um dos três desempenhos mais incríveis da Era dos Pontos Corridos, ao lado do rival, Cruzeiro (2003) e do Flamengo (2019). E ainda, que essa decisão é acertada, mesmo sendo por vias tortas, pois essa estrela será (se já não foi) ressignificada, simbolizando o torcedor atleticano. Proposta, inclusive, do prefeito Alexandre kalil na época em que era dirigente do clube.

(Para saber todos os detalhes sobre a história do Campeonato Brasileiro o Futbox realizou um levantamento inédito sobre o tema. Você pode acessá-lo aqui).

 

Referência e autoridade

 

Reconhecer o mérito do outro e resgatar a história do futebol brasileiro são sinais de grandeza e uma obrigação dos profissionais do esporte, pois eles podem mudar de clube, federação, confederação ou patrocinador. E os seus legados devem incluir também conhecimento e não somente resultado.

Existe muito debate sobre a história do Campeonato Brasileiro, mas pouco conhecimento em relação à sua origem e, principalmente, significado. São muitos ex-jogadores comentaristas nas TVs (aberta e paga) que não possuem um estudo preliminar sobre o tema e emitem opiniões acreditando que estão apontando argumentos. Aliás, um equívoco comum: confundir opinião com argumento. O erro fica ainda pior quando alguns jornalistas e dirigentes de clubes ou federações cometem o mesmo equívoco em relação às origens da competição. Defendem interesses específicos e não a história. A propósito, a gestão do futebol brasileiro precisa ser coletiva e não individual. Pensar o produto em conjunto.

 

Unificação

 

Em 2010 a CBF unificou todos os títulos brasileiros. Veja bem, “títulos brasileiros”. Baseou-se no dossiê produzido pelo jornalista e historiador, Odir Cunha, que realizou uma pesquisa aprofundada sobre os vencedores da Taça Brasil (1959 a 1968), do Torneio Roberto Gomes Pedrosa (1967 a 1969) e da Taça de Prata (1970), a pedido dos seis clubes campeões nesse período: Bahia, Botafogo, Cruzeiro, Fluminense, Palmeiras e Santos.

Diga-se de passagem, o maior e mais vencedor periodo do futebol brasileiro, quando a seleção conquistou o tricampeonato mundial (Copas de 1958, 1962 e 1970). Época de Pelé, Tostão, Garrincha, Didi, Rivelino, Gérson, Nílton Santos, Djalma Santos entre outros. Futebol insuperável até hoje, tanto em desempenho como em resultado.

 

México 1970: delegação do Brasil

México 1970: delegação do Brasil

 

Desde então (2010) começou uma polêmica desproporcional sobre a “origem” do Campeonato Brasileiro. Os que são contra a unificação ou mesmo, contra a utilização do termo “campeão brasileiro” para os campeões entre 1959 e 1970, apontam até hoje uma série de mitos para defender essa posição: a decisão foi política e não histórica, que seria para prejudicar determinado clube, etc. Entretanto, existem alguns fatos que por si só já são o suficiente para esclarecer tudo, como por exemplo: 1989 foi a primeira vez que a competição foi chamada oficialmente de “Campeonato Brasileiro”. Entre 1959 e 1988, inclusive cunhado no troféu, nunca tivemos esse nome, mas durante todo o periodo em questão os torcedores, a imprensa e os orgãos de transmissão se dirigiam à competição e ao vencedor como Campeonato/Campeão Brasileiro. Os nomes ao longo do tempo:

 

• 1959 a 1968: Taça Brasil

• 1967 a 1969: Torneio Roberto Gomes Pedrosa

• 1970: Taça de Prata

• 1971 a 1974: Campeonato Nacional de Clubes

• 1975 a 1979: Copa Brasil

• 1980 a 1983: Taça de Ouro

• 1984: Copa Brasil

• 1985: Taça de Ouro

• 1986: Copa Brasil

• 1987* e 1988: Copa União

• 1989 a 1999: Campeonato Brasileiro

• 2000: Copa João Havelange

• 2001 e 2002: Campeonato Brasileiro

• A partir de 2003: Campeonato Brasileiro – Série A

 

(*O eterno asterisco. Toda a história sobre a Copa União e os motivos para existirem dois campeões brasileiros em 1987, um de fato e outro de direito, aqui).

Dessa forma, se podemos chamar somente de “campeão brasileiro” os clubes que venceram o “Campeonato Brasileiro”, então seriam apenas os vencedores de 1989 pra cá, exceção feita em 2000 quando tivemos a Copa João Havelange. Ou ainda, se “Campeonato Brasileiro” for apenas as competições com as características desse formato: pontos corridos com turno e returno, então seriam somente os clubes campeões a partir de 2003.

Na verdade todos os clubes que venceram essas competições de 1959 a 2021 são campeões brasileiros, mas nem todos conquistaram o Campeonato Brasileiro ou mesmo, o Campeonato Brasileiro – Série A, se adotarmos a nomenclatura como fator de definição.

Porém, se focarmos no significado histórico – que é o mais importante – pois fatos históricos não mudam com o tempo, já as decisões em tribunais, sim, dependendo dos interesses políticos e/ou econômicos de cada gestão, todos os clubes são vencedores do Campeonato Brasileiro, que teve vários formatos, nomes, regras, número de participantes, critérios de qualificação e modelos de troféus diferentes entre 1959 e 2003, quando finalmente adotamos o sistema de pontos corridos. Abaixo todos os modelos de troféus ao longo da história:

 

Ilustrações dos troféus: acervo Futbox

Ilustrações dos troféus: acervo Futbox

 

Ilustrações dos troféus: acervo Futbox

Ilustrações dos troféus: acervo Futbox

 

(Conheça a Galeria de Troféus do Futbox com as principais competições do Brasil e do mundo, atuais e extintas, aqui.)

Quando resgatamos um periodo histórico é fundamental que o analisemos com a cabeça da época, como era a relação da competição com os clubes, torcedores, midia, imprensa, patrocinadores e sociedade em geral naquela ocasião. Os critérios de participação, qualificação ou não para outras competições, se haviam outras equivalentes durante aquele periodo de disputa, etc. Não devemos avaliar um periodo ou competição, por exemplo, com julgamentos ou comparações a partir do nosso momento atual.

 

Resgatar o passado significa preservar o nosso presente para as gerações futuras.

 

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Futbox: concepção, desenvolvimento, publicação

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Adriano Ávila

A prova inquestionável que existe vida inteligente fora da Terra é que eles nunca tentaram contato com a gente.

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