A seleção que incomoda

As Quartas estão definidas, mas antes de tratarmos dessa fase da Copa do Mundo que é a divisora de águas, uma reflexão sobre os problemas que incomodam e não são discutidos como poderiam.

O Brasil venceu a República da Coreia por 4×1, ontem, pelas Oitavas. Está classificado para a quartas, num duelo contra a Croácia na próxima sexta, 9 de dezembro.

O primeiro tempo da seleção brasileira contra os ingênuos coreanos foi soberano, sem a intensidade da estreia, mas objetivo durante os primeiros 45 minutos. O segundo tempo foi mera burocracia até o final da partida. Entretanto, o Brasil não é tão sólido quanto a midia tupiniquim quer acreditar. A grande maioria dos programas de TV e streaming, com a grata exceção de alguns, apontam um favoritismo da seleção canarinho que, realmente, nunca se mostrou pleno, em campo. E vão além, dizendo que o Brasil tem o melhor time titular e também, o melhor elenco. Será? Portugal mostrou um volume de jogo impressionante na vitória, ou melhor, no massacre contra a Suíça. Com Cristiano Ronaldo no banco. Fernando Santos, técnico da seleção portuguesa, faz nessa Copa o que alguns treinadores não conseguem, que é colocar os melhores em campo e nas posições corretas.

 

Gonçalo Ramos, substituto de Cristiano. Foto: Carl Recine

Gonçalo Ramos, substituto de Cristiano. Foto: Carl Recine

 

Portugal vs Suiça. Cristiano no banco. Foto: Suhaib Salem

Portugal vs Suiça. Cristiano no banco. Foto: Suhaib Salem

 

Retornando ao Brasil, essa “superioridade técnica” da seleção poderia realmente existir, pois a qualidade dos jogadores é muito alta. Porém, isso é apenas uma parte do todo. Existem outros ingredientes para que esse “bolo” seja de fato, o melhor, e são exatamente esses ingredientes que faltam à seleção brasileira, como liderança, maturidade e hierarquia no comando.

Começando pelo primeiro, boa parte da imprensa brasileira insiste em querer Neymar como o tão sonhado líder da seleção, mas para ser líder, primeiro é preciso ser adulto, agir com humildade (equilibrada com força) e se sacrificar por um bem maior, e para o menino Ney, o maior bem que existe é ele próprio. É verdade que teve uma ótima recuperação, mérito dele e dos médicos da comissão técnica, mas existem as famosas “pistas” durante uma partida de futebol e elas ficaram muito claras, mais uma vez, na partida contra a Coreia. Lembrando que na estreia Neymar saiu do vestiário sem estar uniformizado e, não satisfeito, amarrou as chuteiras quando a partida já havia iniciado. Prioridades individuais, como sempre.

Em campo contra a Coreia, Neymar procurou sempre o seu parça, Raphinha, o mesmo que o defendeu nas redes sociais no último dia 25, dizendo um monte de bobagens, entre elas: “Como é triste, o maior erro da carreira de Neymar é nascer brasileiro, esse país não merece seu talento e seu futebol”. Tavez não mereça mesmo. Neymar preferiu o parça, quando o passe era óbvio para Vinícius Jr. ou Richarlison. O camisa 10 do Brasil apareceu também de cabelos loiros, iguais ao do centroavante da seleção, que despertou todos os sentimentos positivos que estavam adormecidos no torcedor brasileiro, ao marcar dois belos gols contra a Sérvia, o segundo, uma pintura. Freud explica tudo em relação a esse “new hair”.

Se continuar com essa atitude de adolescente, o enciumado Neymar pode desperdiçar contra-ataques preciosos para o Brasil, pois seu parça já demonstrou que não finaliza bem sob pressão, ao mesmo tempo que Vinícius Jr. e Richarlison estão se movimentando muito bem em campo. O primeiro com a bola e o segundo com e, principalmente, sem ela, no desarme, além de finalizar diante do gol com extrema categoria (para tristeza do ex-jogador italiano, Cassano), coisas que o Gabriel Jesus não conseguiu nas Copas de 2018 e 2022, antes de ser cortado de forma, no mínimo, constrangedora para a comissão técnica.

 

Gol de Richarlison contra a Coreia. Foto: Martin Meissner

Gol de Richarlison contra a Coreia. Foto: Martin Meissner

 

Em relação ao segundo ingrediente, maturidade, existe uma questão coletiva aqui. Ao que parece, todos os jogadores são tietes de Neymar, dentro e fora de campo, sempre o defendendo contra críticas, como se ele não fosse capaz de se pronunciar. Neymar é um craque, sem dúvidas, mas está longe de ser um líder ou o principal no momento, ser uma ferramenta importante para que outros brilhem na conquista do hexa. Tomara que ele receba um curso intensivo nesse sentido, pois restam poucos dias para o final da Copa.

O terceiro ponto, talvez o mais delicado, é que a seleção é dele e não do Tite. Antes que alguém diga: “A seleção é do Brasil”, numa Copa do Mundo a seleção é do técnico, pois é ele quem, teoricamente, escala, substitui e define o modelo de jogo. Tite só tem comando sobre o terceiro item. Dificilmente Raphinha irá perder o posto de titular e, toda a vez que o Daniel Alves entrar, será na conta do Neymar, que também só será substituído depois de muita negociação com o treinador brasileiro.

Mas e a meritocracia e coerência, tão celebradas pelo técnico, Tite? Elas não contam? Técnicamente sim, mas pelo que estamos vendo no Catar e também pelo o que não vimos nos últimos meses, em relação à política, meio ambiente e saúde no Brasil, existem jogadores e comissões técnicas com muito mais méritos e também, aptos, para levantar a Taça da Copa do Mundo.

E sim, futebol e política andam juntos, assim como acontece na música e na arte, todos os três são expressões intrínsecas do ser humano e, num país com 33 milhões de pessoas com insegurança alimentar grave (15,5% das famílias, segundo a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania, Segurança Alimentar e Nutricional – Penssan, que coletou dados em 12.745 domicílios, de novembro de 2021 a abril de 2022), um bife folhado a ouro 24 quilates, avaliado em mais de R$ 9.000,00, divulgado nas redes sociais sendo “apreciado” por ex-jogadores e os atuais da seleção brasileira, é um insulto ao torcedor e cidadão brasileiro.

Aliás, que tipo de valores estamos promovendo quando comemos um “bife de ouro”? Ser ou não uma especiaria em outro país, não muda a relação do mesmo com o que tal fato representa para o povo brasileiro. Basta lembrar que a carne de cachorro faz parte da culinária coreana há séculos e no Brasil, o mesmo animal faz parte da família. O que dizer então do consumo da carne de boi? Como os indianos devem reagir ao nosso costume? Como seria um jogador indiano postando videos comendo um bom e belo churrasco no Rio de Janeiro ou em Porto Alegre? Vale e muito a reflexão disso tudo.

Entre tantas questões complicadas, que mostram a alienação dos jogadores brasileiros e da comissão técnica, conseguimos detectar dois pontos positivos da seleção nessa Copa do Catar: o primeiro, é o retorno bem-vindo da dancinha, mesmo sendo demasiadamente prolongada, a comemoração do Vinícius Jr., após marcar um gol contra a Coreia, o mesmo jogador que havia sofrido comentários racistas há pouco tempo, é uma celebração das culturas brasileira e africana e deve existir sempre, em qualquer gramado, quadra ou pista. Nas sábias palavras do jornalista Pedro Bassan: “O Brasil não dança porque faz gols, o Brasil faz gols porque dança”. O segundo ponto foi discreto em relação ao peso do fato. A faixa em homenagem à Pelé veio num momento importante. Saúde ao Rei do futebol e claro, aqui também existe o debate em relação ao Edson.

 

Faixa da seleção brasileira em homenagem à Pelé. Foto: Manan Vatsyayana | AFP

Faixa da seleção brasileira em homenagem à Pelé. Foto: Manan Vatsyayana | AFP

 

Potencial para ser campeão o Brasil possui, mas existem seleções melhores em todos os cenários levantados anteriormente, como França, Inglaterra, Holanda e Portugal. E a Argentina? Bom, se for a campeã, será do mesmo jeito que o Brasil: faltando muita coisa, um privilégio das duas escolas sul-americanas. Caso as duas seleções avançem para as semifinais, podemos ter um choque de realidade, pois os argentinos “jogam em casa”, com uma torcida apaixonada, que gosta de futebol e não somente de ganhar, onde seus ídolos e ex-jogadores se encontram juntos dos seus torcedores, nas arquibancadas e não em “poltronas reais”, assistindo aos jogos de seus países. Ser melhor tecnicamente pode não ser o suficiente para chegar numa final e, consequentemente, ser o campeão.

 

Foto de capa: Martin Meissner | AP Photo

 

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João Corneta

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