A naturalização daquilo que não faz parte

A foto acima é da FanZone que está sendo montada na praia de Copacabana, Rio. Tudo ou “quase” tudo preparado para a final da Libertadores de 2023.

Confrontos entre as torcidas do Fluminense e do Boca, como da polícia do Rio com argentinos, estão concorrendo com as notícias sobre o grande jogo que está prestes a acontecer. Com expectativa de muitos gols, aliás. (Veja o comparativo entre os clubes aqui).

No livro “A violência no futebol”, de Mauricio Murad (recomendo), a maioria significativa dos atos de violência é praticada fora dos estádios/arenas, por jovens e “adultos infantis”. Esse último termo por minha conta. Porém, muito usado em estudos sobre comportamento, valores e desejos das pessoas nas redes sociais.

 

Mauricio Murad: sociólogo e autor do livro "A violência no futebol"

Mauricio Murad: sociólogo e autor do livro “A violência no futebol”

 

Fazendo um exercício de projeção e com um olhar mais atento em relação aos rumos da tecnologia, pois ela é determinante nesses confrontos que são planejados via redes sociais, por exemplo, estamos formando uma geração que poderá ter um grande impacto na questão da violência no futebol, como na sociedade em geral.

Crianças e adolescentes estão sendo consumidos, já há algum tempo, pelos algoritmos e expostos, de maneira abusiva, a opiniões e comentários muitas vezes racistas, machistas, homofóbicos, etc, de milhares de desconhecidos, que na verdade, fazem parte de um mesmo nicho: jovens carentes de atenção, sem a presença ideal da família ou atuação mínima do estado.

Não fosse o suficiente, estamos maximizando a fase dos jogos eletrônicos que irão vincular armas ao futebol, gerando valor entre elementos que não fazem (ou não deveriam fazer) parte do ambiente um do outro, e que serão difundidos, provavelmente, com enorme aceitação por parte dos clubes e de seus patrocinadores.

Essas crianças e adolescentes de hoje, que começarão a ter o hábito/vício de consumir esses jogos cada vez mais, irão crescer com essa naturalização da presença de armas em ambientes de futebol. É inevitável, pois o sucesso comercial é iminente, somado à vaidade e ao despreparo, muitas vezes oportuno, de muitos agentes decisivos nesse ambiente esportivo.

Recentemente, escrevi três artigos que abordam essa relação do ser humano com os rumos que nós mesmos traçamos ou somos induzidos a acreditar que o fazemos por decisão própria, envolvendo conceitos sobre tecnologia e comportamento. No final do texto os links respectivos.

O jogo de bola em si vai aos poucos perdendo espaço para as “experiências” em torno dele. Já não é mais suficiente assistir a uma partida de futebol, é preciso apostar, interagir e dar opinião em “real time”, ter gráficos sobrepostos ao campo explicando o óbvio, concluindo por nós, nos mastigando tudo para que não seja preciso pensar, pois isso dá muito trabalho. Responder perguntas que não fizemos e que, muitas vezes, não são necessárias e muito menos, criativas ou interessantes.

Acredito que no futuro, o principal objetivo da tecnologia será humanizar o ser humano (um mantra que venho repetindo nos últimos anos), mas até lá, iremos nos deparar com deslumbramentos em relação ao que é de fato, inovação.

Abaixo dois estudos publicados sobre a relação dos jogos violentos e seus impactos nas crianças e jovens. O segundo, inclusive, aborda questões raciais importantes e que nunca deveriam ser ignoradas ou mesmo, menosprezadas.

 

The Enemy – Pesquisa nos EUA associa jogos e comportamento violento

“Eles estão lá para fazer dinheiro. Esse é o negócio. A posição da psicologia é só querer ter certeza de que o consumidor não sairá ferido de maneira alguma.” Kevin M. Kieffer, PhD – Saint Leo University

 

BBC

“Para os autores do trabalho, os resultados indicam que estereótipos associando os negros à violência, possivelmente fazem com que esses sejam mais responsabilizados por crimes, enquanto para os brancos, há uma tendência à busca por explicações externas: como videogames.” American Psychological Association – APA

 

Foto de capa: FanZone – Copacabana, Rio. Wagner Meier | Getty Images

 

Podcast:

 

Clique na imagem abaixo e confira o bate-papo na íntegra no Bora Pra Resenha Podcast onde falamos sobre a revitalização das marcas dos clubes de futebol, seleção brasileira, calendário, VAR, regras atualizadas, as novas demarcações do campo e muitas outras curiosidades sobre a história do futebol:

Futbox no Bora Pra Resenha

Futbox no Bora Pra Resenha

 

 

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Adriano Ávila

A prova inquestionável que existe vida inteligente fora da Terra é que eles nunca tentaram contato com a gente.

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