De Idiocracia à Copa 2026: vinte anos em que a audiência virou argumento
Lançado em 2006, com direção de Mike Judge, Idiocracy (traduzido como Idiocracia, no Brasil, e Terra de Idiotas, em Portugal) conta a história de Joe Bauers, um homem comum escolhido pelo Pentágono para participar de um programa ultrassecreto de hibernação.
Esquecido pelo governo, Joe (interpretado por Luke Wilson) acorda cinco séculos depois, no ano de 2505, e descobre uma sociedade tão burra, onde ele, cidadão absolutamente mediano, é a pessoa mais inteligente do planeta. O filme apresenta elementos racistas, inclusive, mas permanece com sua crítica principal ao estilo de vida norte-americano.
O presidente dos Estados Unidos é interpretado por Terry Crews, conhecido pela série “Todo Mundo Odeia o Chris” e pelas recentes propagandas de sites de compras, sempre em uma personagem exagerada e caricata. Alguém que, olhando para 2026, parece muito menos ficção do que parecia em 2006. (Mais detalhes sobre o filme na matéria publicada no The Guardian)
Vozinha, um apelido eternizado
Josimar José Évora Dias é o nome do goleiro de Cabo Verde que fechou o gol na estreia do país em Copas do Mundo, segurando o empate sem gols contra uma das favoritas, a Espanha.
O nome é uma homenagem ao ex-lateral-direito da seleção brasileira Josimar, jogador do Botafogo que disputou a Copa do Mundo de 1986, marcando dois golaços contra Irlanda do Norte e Polônia.
Josimar (goleiro) é também o segundo atleta que mais vezes vestiu a camisa da seleção cabo-verdiana, com 90 partidas até o momento, além de quatro participações na Copa Africana de Nações e da campanha que eliminou Camarões nas Eliminatórias para 2026. Atualmente, defende o Chaves, da segunda divisão de Portugal.
O apelido surgiu ainda na infância, na ilha de São Vicente, em Cabo Verde. Criado pelos avós Maria Senhorinha dos Santos e Manuel da Luz Moraes — quanta pureza nesses nomes, inclusive — Josimar costumava jogar futebol com crianças mais velhas e voltava para casa irritado quando sofria gols. Os amigos diziam que ele chorava as mágoas com os avós. Assim nasceu “Vozinha”.
O algoritmo entra em campo
“Vai mudar a vida dele”, disse a repórter da plataforma de streaming enquanto aguardava ansiosa pelo goleiro na zona mista, área de entrevistas do pós-jogo.
Durante a partida contra a Espanha, uma campanha em tempo real, realizada pela Cazé TV, levou o perfil de Vozinha de cerca de 50 mil para 1,5 milhão de seguidores em menos de 90 minutos.
Uma marca de refrigerantes não perdeu tempo diante disso tudo e publicou em suas redes sociais: “Segunda-feira, 15h00. Um Josimar parou o Brasil. Só em época de Copa do Mundo se vive a emoção de torcer por um herói improvável.” Na verdade temos heróis improváveis a todo instante, acordando cedo e dormindo tarde.
A empresa ganhou visibilidade, aproximou-se do seu público-alvo e provavelmente irá lucrar muito mais do que o próprio goleiro receberá por todo o impacto gerado.
A vida de Vozinha pode realmente mudar. E seria ótimo que mudasse. Mas é provável que esse episódio gere muito mais lucro para plataformas, empresas e marcas do que para a principal personagem dessa história. E esse é justamente o primeiro ponto.
O espetáculo da atenção
Chega a ser surpreendente o poder real e imediato das redes sociais, capazes de transformar desconhecidos em fenômenos instantâneos e de eleger pessoas absolutamente despreparadas para cargos de enorme importância, no Brasil e no mundo.
Nessa Copa acabamos de assistir a um exemplo impressionante: um streaming fez o goleiro de Cabo Verde ganhar milhões de seguidores em poucas horas. O feito é inegável. Assim como foi a sua excelente atuação no jogo. No momento em que escrevo este artigo, o perfil de Vozinha já ultrapassou 9 milhões de seguidores.
O que mais chama a atenção, porém – infelizmente sem surpresas aqui – é a forma como boa parte da imprensa e muitos usuários passaram a se relacionar com esse acontecimento, além de constatar os desequilíbrios emocional e afetivo presentes nas entrelinhas dessa manifestação via redes sociais. O que justificaria, por exemplo, a idolatria a um jogador que não joga ou a um politico que não trabalha. O que muitos estão defendendo na verdade é o direito de não crescer, de não ter responsabilidades ou de ganhar dinheiro sem esforço ou mérito.
Popularidade virou argumento
O problema nunca foi Vozinha ganhar milhões de seguidores. Não há nada de errado em um atleta ter projeção depois de uma atuação histórica em Copas do Mundo, Olimpíada, na escola, etc. Isso será sempre uma boa notícia.
O segundo ponto para reflexão está em uma sociedade que passou a medir relevância, sucesso, credibilidade e até mesmo caráter, pela quantidade de pessoas que apertam um botão de “seguir”.
Nesse ambiente, empresas e plataformas transformam atenção em moeda, popularidade em argumento e engajamento em verdade. E o mais preocupante, multidões passaram a confundir audiência com inteligência e relevância e a buscar o maior número de seguidores, custe o que custar (inclusive a vida), imaginando ser esse o caminho mais fácil para o sucesso.
2006 – 2026
O algoritmo não distingue um profissional de um oportunista, um pesquisador de um influenciador ou um estadista de um ditador, premia apenas quem consegue capturar os olhos dos usuários por mais tempo.
Esse fenômeno produz um efeito ainda mais profundo: o que antes dependia de conhecimento e experiência, passa agora a ser validado pela capacidade de gerar cliques, curtidas, seguidores e compartilhamentos, dificultando a formação do senso crítico em um número considerável de pessoas, entre outras coisas.
Adultos infantis torcendo por um jogador hipotético, convocado sem condições de jogo, enquanto o objetivo velado é gerar lucro e nada mais; instituições esportivas priorizando o dinheiro em detrimento do futebol; senadores recebendo salários enquanto comentam a Copa do Mundo; deputados federais trabalhando apenas 49 dias no semestre e defendendo, em público e sem constrangimento, a escala 6 por 1; pessoas bebendo detergente, rezando para pneus e dizendo-se patriotas enquanto usam bandeiras de outros países e defendem interesses estrangeiros. Nada disso fez parte do roteiro de Idiocracia, são fatos atuais, presentes diariamente nos noticiários.
Talvez o maior acerto do filme de Mike Judge não tenha sido prever o futuro, mas entender como a inteligência perderia espaço para o entretenimento. Entre Idiocracia e a Copa do Mundo de 2026 passaram-se apenas 20 anos.
Capa: Montagem Futbox | Fotos: divulgação
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