A Credulidade Beócia Na Tecnologia II – A Missão

O instante mais precioso — e talvez menos discutido — numa análise de impedimento pelo VAR não é a linha traçada. É o chamado ponto zero: o exato momento em que o jogador toca a bola para realizar o passe.

Um frame antes ou um frame depois pode mudar tudo. Em determinados lances, pode ser justamente a diferença entre um atacante estar em posição legal ou impedido.

Por isso, não basta mostrar ao público uma imagem já congelada, com as linhas prontas, durante um segundo, como quem exibe rapidamente um documento e espera que ninguém tenha tempo de examiná-lo.

Se a tecnologia pretende eliminar a dúvida, precisa começar mostrando justamente aquilo que determina todo o restante da análise: como foi escolhido o frame do contato com a bola.

É preciso ver o movimento. O pé se aproximando da bola, o instante do toque e os frames imediatamente posteriores. Só depois deveriam aparecer as linhas.

No ano passado, Corinthians e Cruzeiro protagonizaram um ótimo exemplo sobre o artigo que indico ao final. Em um lance envolvendo o Cruzeiro, acompanhamos durante um bom tempo o VAR trabalhando e traçando as linhas ao vivo. Em outro, favorável ao Corinthians, apareceu rapidamente uma imagem já congelada e com a análise praticamente entregue ao espectador.

E havia um detalhe importante: o pé do jogador corintiano responsável pelo passe ainda estava no ar. Qual foi, exatamente, o frame utilizado como ponto zero? Um ou dois frames adiante alterariam a posição relativa do atacante.

E esse é justamente o problema. Não estou dizendo que houve manipulação. Estou dizendo algo mais simples: quando uma decisão depende de centímetros — às vezes de milímetros —, a transparência sobre a escolha do frame não pode ser menor do que a precisão que a tecnologia afirma oferecer.

Na partida de ida ainda houve a discussão sobre o toque de mão em um dos gols do Corinthians. Passou praticamente despercebido. Será?

Ontem foi a vez do São Paulo sair de campo com bons motivos para questionar mais uma decisão do VAR.

É nesse ponto que a reflexão sobre a “credulidade beócia na tecnologia” deixa de ser apenas filosófica e entra definitivamente no campo de futebol: não deveríamos confiar numa decisão simplesmente porque há uma linha colorida sobre a imagem.

A linha é o fim do processo. Antes dela existe uma escolha. E é justamente essa escolha que precisamos enxergar.

“Hoje, os sacerdotes mudaram, mas o culto permanece: o videotape cedeu lugar ao VAR. Forma-se, então, um curioso paradoxo: quanto mais sofisticada é a tecnologia, menos as pessoas parecem confiar na própria inteligência.” (A Credulidade Beócia Na Tecnologia, do professor Sidney Silveira – texto completo aqui).

 

Foto de capa: São Paulo vs Boca Junior , Copa Sul-Americana 2026 | Reprodução: ESPN

 

 

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Adriano Ávila

A prova inquestionável que existe vida inteligente fora da Terra é que eles nunca tentaram contato com a gente.

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