Como sempre, a culpa é do mordomo

Confesso que é tentador eleger os culpados por mais uma eliminação do Brasil em Copas do Mundo, novamente diante de uma seleção europeia. A final de 2002 foi a última vitória brasileira sobre um europeu em mata-matas de Mundiais.

De lá pra cá, o maior vexame da história do esporte, os sonoros 7 a 1, conhecido também por “gol da Alemanha”, não foi suficiente para que o futebol brasileiro se reiventasse.

A gestão atual da CBF foi apresentada ao torcedor como sendo a solução para o futebol do país. Uma piada de mau gosto, onde o presidente não é quem manda na entidade. Ás vezes é preciso mudar para que as coisas continuem as mesmas.

O culpado por mais uma desclassificação do Brasil em Copas continua sendo o mesmo das antigas histórias de suspense: o mordomo. No futebol brasileiro, ele atende por outro nome. Ou melhor, por uma sigla: CBF.

 

Cafonice foi o menor dos problemas

 

Os ditados populares costumam guardar uma verdade cômica. Há um que se encaixa bem nesta história: “Pau que nasce torto, morre torto”. Existe até um complemento menos conhecido: “Até a cinza é torta”.

A CBF montou um festival de cafonice para anunciar a convocação de Ancelotti. O resultado foi constrangedor. Celebridades desconectadas da realidade ganharam closes e protagonismo, como se representassem algo positivo para os rumos do futebol brasileiro.

Entre as personagens daquele que talvez tenha sido o evento mais ridículo da história das convocações para uma Copa do Mundo, estava Luciano Huck.

 

Luciano Huck no evento da convocação brasileira para a Copa de 2026

Luciano Huck no evento da convocação brasileira para a Copa de 2026

 

Vale registrar uma de suas frases na “festa” da convocação: “O talento, o mundo inteiro produz. Mas essa mistura brasileira do sonho, do improviso, da fome, da coragem, da alegria… Isso é só nosso”.

Vejam vocês, a fome agora é um valor. A estupidez não tem limites. Era o início da nova tragédia do Brasil em Copas do Mundo.

 

Mais uma na conta

 

Copa de 2026, Oitavas de final. Com apenas dois minutos de jogo, Casemiro já fazia o papel de guarda-costas de três atacantes noruegueses dentro da própria área. Ancelotti insistiu com Rayan, atacante cuja principal virtude é desarmar. Na Itália, talvez seja assim.

E por que Bruno Guimarães foi o escolhido para bater o pênalti? A justificativa de que era o melhor nos treinos soa como uma desculpa conveniente. Tão conveniente quanto colocar Neymar contra a Noruega, no melhor estilo Pôncio Pilatos. “Treino é treino. Jogo é jogo”, frase genial de tão simples dita por Didi, maestro da seleção na conquista da primeira estrela, em 1958, eleito o melhor jogador daquela Copa.

De volta à cobrança. Vini Jr. entregou a bola para Bruno Guimarães cobrar o pênalti como quem entrega a chave ao manobrista de um estacionamento. Um gesto que transmitiu uma mistura de alívio com constrangimento. Não houve troca de olhares. O camisa 7 era o protagonista da seleção nessa Copa. A cobrança do pênalti deveria ser dele.

Segundo tempo. Ancelotti substituiu Matheus Cunha por Endrick e o time aumentou sua rotação. Entretanto, o treinador colocou Neymar em campo e isolou Endrick na ponta direita, matando a intensidade criada.

O Brasil terminou a partida contra a Noruega com apenas 34% de posse de bola, o menor índice da história da seleção, desde que essa estatística passou a ser registrada em Copas do Mundo, em 1966. Coincidentemente, ano da pior campanha brasileira em Mundiais com fase de grupos, marca igualada ontem. Mais uma na conta da CBF.

 

As tentações

 

Em determinado momento, ao ser perguntado sobre o ciclo até 2030, Ancelotti respondeu que o trabalho seguiria com “essa seleção”. Poderia ter dito “Brasil” ou “seleção brasileira”. Talvez tenha sido apenas falta de intimidade com o português. Ficou a impressão de um certo distanciamento entre o treinador italiano e a CBF.

Ancelotti convocou mal, escalou mal e substituiu mal. Cumpriu todos os requisitos para uma eliminação em Copas do Mundo.

E o menino Ney? Neymar não é somente um desperdício de talento, mas de tempo também. Do nosso e da presença dele na seleção brasileira. Foi patética sua postura na cobrança do pênalti. O Brasil estava sendo eliminado da Copa, mas o menino de 34 anos parecia preocupado apenas com seus próprios objetivos.

 

Montagem Futbox: fusão da personagem do filme Idiocracia e do jogador Neymar

Montagem Futbox: fusão da personagem do filme Idiocracia e do jogador Neymar

 

O camisa 10 foi convocado e escalado pelos patrocinadores. Curiosamente, os mesmos desapareceram da mídia e das redes sociais depois da eliminação da seleção brasileira.

Neymar entrou mudo e saiu calado desta Copa. A exceção foi dizer nas redes sociais o valor do relógio de luxo que comprou, além de um melancólico “comecei aqui e terminei aqui”, em referência ao mesmo estádio onde disputou seu primeiro jogo pela seleção.

Continua sem enxergar nada além do próprio umbigo. Um ídolo perfeito para o mundo de Idioacria. (Deixo aqui o link do artigo que escrevi sobre esse filme de 2006 e o seu paralelo com a Copa de 2026 e com o nosso comportamento nas redes sociais.)

 

Sem opção de escolha

 

O Brasil não abandonou seu DNA ou sua forma de jogar por escolha. Simplesmente não conseguiu mais sustentá-los. Os jogadores brasileiros são vendidos para a Europa e para a Ásia cada vez mais cedo, antes mesmo de se tornarem brasileiros dentro de campo. Absorvem filosofias que descaracterizam a cultura futebolística do país, inibem o drible e reduzem ou impedem a formação dos camisas 10, 9 e 11, posições que ajudaram a eternizar o futebol brasileiro.

A isso se somam as escolinhas de futebol, onde crianças de apenas oito anos aprendem disciplina tática, marcação intensa, carrinhos e a vencer a qualquer custo. Aprendem a desarmar antes de brincar propriamente com a bola. Em algumas escolas, o drible chega a ser punido. Uma estupidez sem fim.

 

Correção de rumo

 

As cobranças precisam existir, mas devem ser dirigidas ao verdadeiro responsável pelos rumos do futebol brasileiro: o mordomo, claro. Ou, neste caso, a CBF. A entidade transformou-se em uma espécie de empresa familiar encarregada de administrar um patrimônio cultural do povo brasileiro.

Agora conta também com o apoio de influenciadores e plataformas de streaming que tratam a audiência como um fim em si mesmo, ignorando as responsabilidades que ela impõe. Era tudo de que a CBF precisava: adolescentes brincando de adultos, enquanto suas audiências passaram a pautar o comportamento e até a linha editorial dos grandes veículos de comunicação. Houve um tempo em que o Brasil era campeão, apesar da CBF. Esse tempo não existe mais.

 

Capa: montagem Futbox
Fotos: Fabiano Rocha Extra e Getty Images

 

 

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Adriano Ávila

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