Brasil 70: A Saga do Tri. Uma boa série de ficção
Em um dado momento, na série Brasil 70, os jogadores da seleção brasileira são surpreendidos pela demissão de João Saldanha. Aparentemente nervosos, perguntam ao agora, ex-treinador: “O que vamos fazer, Saldanha?”.
Difícil imaginar Pelé, Tostão, Gérson, Carlos Alberto ou Rivellino “sem rumo”, como retratados nessa cena. Tal conduta se aplicaria muito mais aos jogadores atuais, reféns das redes sociais e dos patrocinadores, assim como a CBF. Talvez essa representação se deva pela influência da geração atual, formada por jogadores sem personalidade (com raríssimas exceções), devotos de um eterno menino de 34 anos.
Personagens
Todo o elenco está bem caraterizado esteticamente, mesmo que exista uma “limpeza” excessiva nos figurinos e cenários, tudo muito bem passado e higienizado e uniformes que insistem em ficar limpos ao final das partidas, o que acaba nos afastando um pouco do que acontece na tela.
As atuações dos atores/jogadores são boas e até, surpreendentes em alguns casos. Porém, a confusão acontece nas personalidades de alguns, retratadas em cena. Pelé é caracterizado como uma pessoa confusa e ingênua, difícil de acreditar, posto quem era. Tostão também é representado de uma maneira distante da real personalidade do jogador, com falas em “minerês” bem caricato.
Outro ponto confuso na série é a ausência da liderança de Gérson no vestiário, característica do jogador na seleção de 70. Zagallo é retratado também de uma maneira muito fragilizada, preocupado em demasia com João Saldanha, contradizendo, por exemplo, as inúmeras declarações e entrevistas de Tostão sobre o “Velho Lobo” ao longo de cinco décadas.
Anacronismo
“Vocês vão ter que me engolir”, famosa citação de Zagallo, não foi dita em 1970, mas quase 30 anos depois, na Copa América de 1997, assim como “Dadá Maravilha” não existia na época, o jogador era conhecido como “Dario Peito de Aço”, como lembrou um grande amigo meu.
A licença poética/temporal é compreensível, pois o desabafo e o apelido entraram para a história, mesmo acontecendo em períodos posteriores à Copa de 1970, como outra fala de Zagallo na série: “Eu já sabia”.
Dentro dos estádios
A representação dos gols é muito bem realizada, talvez a melhor até hoje, documentada em filmes e séries produzidos no Brasil. É emocionante, de fato, onde os dribles e lances foram executados com precisão, boa direção e ótimo desempenho dos atores dentro das quatro linhas.
Em paralelo, temos a reprodução do lendário uniforme da seleção de 70 com alguns aspectos que deixaram a desejar, principalmente em relação ao formato/tipologia dos números nas camisas dos jogadores. E o detalhe mais “desperdiçado” nesse quesito: o apagamento da Umbro.
O Brasil disputou toda a Copa do México com duas fornecedoras esportivas: Athleta, retratada na série, geralmente no primeiro tempo e Umbro, no segundo. Essa distinção era visível, pois os números nas costas das camisas eram bem diferentes.
No jogo contra a Inglaterra, por exemplo, temos uma boa amostra de como eram os números da Umbro, presentes nas camisas do “English Team” e que entraram para a história do futebol nos gols marcados pelo Brasil, na final contra a Itália. Eles estão presentes também nas camisas da União Soviética, no jogo contra o Uruguai e nos créditos finais, onde visualizamos lances reais da final e do pós-jogo, com a torcida invadindo o gramado e despindo os jogadores brasileiros da cabeça aos pés. Sem dúvida, uma situação única na história das Copas e impressionante até hoje. Detalhe: o logo antigo da Umbro aparece rapidamente na camisa de um torcedor presente na arquibancada.
O restante do enxoval CBD da seleção brasileira foi muito bem caracterizado (a CBF seria criada somente em 1979), com o icônico casaco e o escrito “brasil” com letra minúscula, a flâmula que trazia a bicicleta de Pelé e as famosas camisas da comissão técnica, no tom azul-claro e listradas em verde e amarelo. E claro, os meiões cinzas usados pela seleção nos jogos contra Inglaterra e Peru.
As reproduções dos escudos bordados nas camisas de jogo ficaram ótimas. Esqueceram de duas versões curiosas do escudo brasileiro em 1970: com duas estrelas (modelo que aparece em fotos dos jogadores, na época), e o escudo com os dizeres “Café do Brasil”, usado pela primeira vez na Copa de 1962, no Chile. Raridades históricas.
Não precisava
A presença do casal como alívio cômico foi desnecessária, enfraquecendo a imersão na série e, consequentemente, na Copa em si. Trata-se daquele velho formato de novelas no Brasil, onde existe a noção equivocada de que toda produção audiovisual precisa desse “envelope” para entreter o público. O resultado são minutos preciosos para o desenvolvimento das personagens e tramas substituídos por cenas envolvendo o casal.
Futebol e Política não se misturam: são a mesma coisa
Uma decisão bem-vinda na série é a presença da ditadura no cenário brasileiro durante a conquista do tri, muito significativo e fundamental para que as novas gerações entendam ou no mínimo, despertem a curiosidade em saber o que foi, de fato, a ditadura no Brasil e as atrocidades cometidas pelo governo militar nesse periodo.
A personagem de João Saldanha é bem conduzida e mostra a interferência da ditadura nos rumos da seleção, além da manipulação do futebol para construção de uma imagem positiva para o governo militar.
No link abaixo “Memórias do Chumbo: O Futebol nos Tempos do Condor”, do jornalista Lúcio de Castro, documentário que revela como as ditaduras militares na América do Sul se apropriaram do futebol. Quatro episódios imperdíveis sobre quatro nações apaixonadas pela bola: Brasil, Argentina, Uruguai e Chile.
Celeste e Azzurra
Os dois últimos episódios são destinados à semifinal, contra o Uruguai e à final, contra a Itália. No primeiro caso, temos um “dramalhão mexicano”, literalmente. Muito tempo de tela destinado para mostrar eventuais medos dos jogadores brasileiros, devido ao Maracanazo em 1950, quando o Brasil perdeu a Copa para o Uruguai, em pleno Maracanã. O episódio se arrasta um pouco até chegarmos ao jogo em si e então, desfrutarmos de belas cenas e situações que aconteceram na partida, muito bem reproduzidas até o seu encerramento com a música “Não adianta”, do Trio Mocotó. Emocionante, realmente. (Confira a animação stop motion do 2º gol de Alcides Ghiggia, contra o Brasil em 1950)
Contra a Itália, o desfecho da saga e mais um trauma a ser superado por Pelé. Isso se repete durante toda a série, inclusive. Parece ter sido uma decisão criativa mostrar o jogador que eternizou a camisa 10, mais vulnerável. Na verdade, Pelé possuía uma força mental impressionante e dificilmente se abalaria às vésperas de jogos importantes, como foi exibido na série.
Na partida final, muita emoção a cada gol reproduzido e mais ainda, com cenas reais mescladas durante o episódio. Essa mistura acontece sutilmente durante toda a série, mas aqui, são bem explícitas, despertando de forma natural e orgânica um sentimento pela seleção que foi esquecido e manipulado por algumas instituições brasileiras ao longo do tempo. (O 4º gol do Brasil, marcado por Carlos Alberto na final de 70, na animação stop motion do Futbox)
Uma boa série de ficção
Com altos e baixos Brasil 70 não tem o compromisso ou o objetivo de ser um documentário. É uma ficção, porém com um legado real. A série resgata o feito da maior seleção de futebol de todos os tempos e nos conta, de uma maneira divertida e dramática, os bastidores da conquista em definitivo da Taça Jules Rimet. Aliás, esse “pra sempre” durou apenas 13 anos, uma vez que o objeto mais importante da história das Copas foi roubado da sede da CBF e, supostamente, derretido em 1983. Uma vergonha tão grande ou maior do que os 7 a 1.
A Saga do Tri é uma obra que merece todos os elogios e desperta o sentimento de amor pela seleção. E aqui fica uma provocação: quanto menos se sabe sobre o que aconteceu em 1970, dentro e fora de campo, maior a chance de gostar da série.
Nos dois slides abaixo algumas ilustrações do acervo Futbox sobre a Copa de 1970:
Confira o trailer da série:
Foto de capa: Marcelo Maragni | Divulgação
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